Ressonância dos acordes

Esta é a história do violão que entrou na minha vida como presente de uma querida amiga, já falecida, e que possibilitou a formação da dupla Sol e Lua 70+. O duo apresentou contos musicados ao som do violão e piano. Aqui o violão é protagonista de sua própria história e representa as diversas paisagens da vida mostrando que a velhice é mais um momento da vida que precisa ser bem vivido para valer a pena. Ele continua sendo a música de fundo para os contos

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ressonância

Eu sou a evolução dos meus antepassados que surgem em forma de uma casca de tartaruga fechada com couro de boi e cordas feitas de tripas de carneiro. As luterias, por sua vez, se preocupam tanto em aprimorar o meu formato, que hoje possuo curvas elegantes e atraentes que se tornam atributos de raparigas formosas. Não sou mais um daqueles que chamam de instrumento de Neanderthal, pois graças a minha moderna caixa de ressonância, posso emitir sons que emocionam e fazem sonhar. Eu sou o violão e tenho uma família muito grande.

De cabeça erguida posso dizer que enfrentei diversas paisagens da vida e várias intempéries. Apesar de muitas vezes exposto ao sol e a chuva, acabo em vitrines de grandes e pequenas lojas de instrumentos musicais, mas a minha aparência não sofre danos e permaneço feliz ao lado dos meus primos e tios. O brilho da minha caixa atrai as pessoas que me manuseiam com curiosidade.

Por vezes aparece um ou outro músico para testar minhas cordas e de tempos em tempos chegam jovens que querem ter a certeza que eu emito sons. Eis que um dia chega uma senhora simpática acompanhada de uma garota, me olha, me segura pelo braço e me entrega para a jovem que está ao seu lado. Descubro ser a sua neta. A garota me rejeita, não me quer. Sinto-me humilhado.

De repente um pano ou toalha é jogado por cima do meu corpo e sinto que me transportam; não vejo mais nada. Que sensação horrível. Tudo escuro. Até que o pano é removido e posso ver de novo. Olho ao meu redor. Estou no canto de um sótão escuro e úmido, onde teias de aranhas formam uma decoração assustadora e há um cheiro forte de mofo. Não sei quanto tempo estou neste lugar. São noites eternas onde não há janelas.

Que futuro posso ter aqui, neste recanto dos esquecidos onde o tempo não passa e só existe tristeza e abandono. Porém, num certo momento, não sei dizer se é de dia ou de noite, aparece aquela neta agora com sua filha, uma linda moça cujos olhos percorrem o local e se fixam em mim. Aproxima-se, pega-me pelo braço e me segura com cuidado.  É tanta felicidade que o calor me invade. É o fim do meu confinamento, penso.

Voltarei a viver ao lado da divertida juventude. Não se deve festejar antecipadamente, dizia o meu tio de doze cordas. Ela olha para mim, deixa escapar um suspiro e me leva numa sala grande onde há muitas pessoas idosas, na maioria senhoras, algumas acompanhadas de jovens de jaleco branco. Todos estão sentados numa roda e eu sou entregue solenemente para uma das senhoras presentes, Francine, que ao ver-me solta um oh. Não sei se de alegria ou de decepção.  Eu estou envergonhado com o meu estado, todo sujo e com as cordas enferrujadas e quebradas. Uma péssima visão.

Francine me leva para a sua residência. Lá sou acomodado num suporte de chão, que certamente já acolheu outros violões. Passo a noite me recuperando da viagem estressante. Francine me olha com desconfiança. De você cuido amanhã e se recolhe feliz. Também me sinto feliz. Nova casa nova vida.

Desde o nosso primeiro contato nascem laços de amizade fortes. Não esqueço o dia em que me deita no sofá de dois lugares, se ajeita num banquinho, segura panos e produtos e inicia a minha transformação. Minhas velhas cordas enferrujadas e quebradas são substituídas por cordas novas e brilhantes. Só posso agradecer, pois sei o quanto é difícil trocar encordoamento; o receio que sente de não conseguir e da dor que o girar das tarraxas duras proporciona.

Quão grande é sua alegria e satisfação de ver o resultado tão positivo. Assim, aos poucos construímos e alcançamos momentos inesquecíveis. De Beethoven a Bach e Mozart seus dedos deslizam pelas cordas com emoção e sensibilidade. A melodia traduz a beleza que é a alegria de acordar e da leveza ao dormir. Na amizade e no afeto que suavizam a aparência e no brilho dos olhos que espelha o estado de espirito. Admiro o entusiasmo e a dedicação com os quais encara a difícil tarefa de tornar os dedos deformados tão leves e ágeis como bailarinos clássicos.

Sigo a tocar melodias sejam elas tristes ou alegres, pois cada nota que sai da minha caixa de ressonância significa vida.